Poetisa com Z

Poetisa com Z

quarta-feira, 21 de setembro de 2022

Filha do Fogo

Sou apenas vulcão, 

com gotas de erudição.


Natasha Treuffard

Anoitecer

Confuso.

Com o fuso das Moiras a Tecer.

Com medo de furar o dedo, 

bota o dedal.


Não quer ser o belo adormecido.

E depender do meu beijo.

Tem medo.


Quer crescer,

acontecer

e devir.


Com o Fuso das Moiras. 

Porvir.


Convergir.

E em meio a tsunami

boiar de mãos dadas.

Nas linhas das Moiras, 

emboladas.


Nas linhas da minha mão.


Na trama,

da minha cama,

tecer.

Lama

e flor de lótus. 

 

Linhas

e entrelinhas.

Entre laços,

compassos e

descompassos.

Passos atrapalhados,

no vale do medo.

Entre abraços.


Com as Moiras a fiar...

Ele não mais desconfiar.

E ser.


Ser?

Ou não ser?

Seria a questão?


Não!

A questão é ser e ser!!

É florescer.


Entre beijos,

não mais temer

e me ter.


As Moiras dançando 

com seu fuso.


Ele não mais confuso...

Ele ainda com medo...


As linhas do tear se apertando,

terminando o tecido,

embolando,

seu cabelo no meu.

Meu cabelo no seu.


E você no meu corpo,

desfazendo os nós.


Sem labirinto,

onde te jogo meu novelo

e sem novela,

você acha a direção. 


Ariadnemente.


Você tesão,

ao inves de Teseu.


Entre as Moiras

fios

e linha.

Entrelinhas...


E você,

nas linhas da minha mão.  


Nos laços,

do meu vestido que você desata.

Atando seu corpo ao meu.


Num elo,

que desarma o duelo.

E faz seu corpo feliz,

de estar onde quer.

De me fazer mulher.


Vem,

fazer nó no meu cabelo, 

pra depois você me pentear.

Vem serpentear comigo. 

Cigana,

sereia e menina.


Vem,

sem desconfiar.


O traçado já foi feito.


Então, não puxa o fio das Moiras,

que desfaz a trama.


Vem pra nossa cama,

me anoitecer.


Natasha Treuffard


Natasha Treuffard

terça-feira, 6 de setembro de 2022

Ateia

Ateia,
move sua teia.

As tetas férteis,
as terras,
as pernas,
nuas.

Onde nasce o esperma.

Útero,
que gera o ser.

Seu nome,
bendito eu grito!
Meu nome,
escrito na bíblia da tua pele,
você grita!
Em silêncio.
Mesmo querendo calar.

A rima,
os versos,
onde nossos corpos se animam.
E depois você me nina.

Eu, 
menina e mulher no seu corpo ateu,
que me disse:
"sou teu."

Num repente,
dos nossos corpos quentes.
Ardentes.
Você serpente
e eu maçã. 

Meu nome foi tatuado em ti.
Seu nome foi tatuado em mim.

Antes, depois e agora!

Nada existe!
Tudo existe!

Não existe hora!

É tudo igual.
E assimétrico. 

Desigual,
ritual,
portal,
espiral
e imortal.

Útero.

Sua serpente 
eternamente ardente,
em busca do meu útero. 

Da minha terra, 
da minha teia.

E eu,
ateia.

Eu ateia e sua deusa.
Ateia e sua musa.
Sua música.
Das esferas.

Eu,
sou,
suas feras.

Efêmera,
vulcânica,
E cálida.

Não me calo! 

Cálice!
De sangue.
Cálice sagrado.
Sou seu santo graal.

Sou sua estrela,
trasmundana
e antimetafisica. 
Antiapocalíptica.
Terrestre.

Tsunâmica e terremótica.
Música da terra.

Música das nascentes.
Das serpentes,
ressonantes vermelhas,
das estrelas,
das esferas.

Suas feras,
sempre em mim,
que me respiram 
e me tragam.

Me atraem
e me fazen gemer.
Me fazem sua gêmea. 
Ateia.

Vem!
Me conjurar!
Me exorcizar!
Me catequizar!
Me rezar!
Me batizar!
Me lilithizar...

Entre as minhas pernas.
Luciférica.
Eu por cima de ti.

Na minha teia,
de sereia,
ateia.

Onde,
você bem sabe,
sem querer,
prendi seu coração. 



NatashaTreuffard